Foram quase duas horas vendo a vida passar. Mas nada passava. Não havia nada que se movesse, nada que fizesse coisa alguma. Pelo vão formado entre as coxas podia ver a pia da cozinha, onde repousavam alguns copos, canecas, talheres, pratos, uma peneira e algumas travessas. Parte das louças estavam no escorredor. Já estavam secas, mas ainda estavam lá. Logo à frente da pia estava a mesa, com as cadeiras desalinhadas, a toalha com respingos e o que pareciam ser algumas migalhas de bolo. Sobre a mesa, um recipiente de madeira com algumas poucas frutas, uma manga, três laranjas, quem sabe mais alguma escondida atrás das outras. Naquela vida ali parecia que não tinha nada, absolutamente nada o quê se ver passar. E ainda assim, passava. O cenário todo era registro da vida que havia passado ali. E um registro também do que se passava naquele momento. A vida de quem via a vida passar.

Enquanto as crianças dormiam. Enquanto o marido dormia. Enquanto os gatos dormiam. Eu simplesmente observava a tudo e a nada. Cansada do dia, não com preguiça, nem exaustão, apenas aproveitando daquele raro sentar despreocupado no sofá. Sem som. Sem televisão. Sem computador. Sem celular. Sem caneta. Sem papel. E a vida passou lentamente, demoradamente e deliciosamente. Foi quase melhor que observar as pessoas e a rotina em sala de espera de consultório médico.

Depois daquele pequeno feriado em meio às férias, que nada têm de tempo de descanso, levantei renovada do sofá. Olhei pro relógio da cozinha e me surpreendi com o tempo que havia passado. Realmente, ele passa sem trégua e ligeiro. Endireitei as cadeiras. Limpei a mesa. Sim. Eram migalhas de bolo que haviam ali. De laranja. Quase pude sentir o cheiro do bolo novamente. Guardei as louças já secas e lavei as que haviam na pia. Recolhi mais alguns poucos objetos do sofá e apaguei as luzes. A vida continuou a passar, mas eu não estava mais ali para vê-la, pelo menos não mais pelos cinco sentidos. Mas talvez eu ainda pudesse vê-la em meus sonhos. Talvez.

Sou a Cris. Educadora, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização ou recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras, amante de uma boa conversa e de um bom livro.

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