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Foi a primeira entrega. “Estarei de vestido florido”, ela disse. “Vou descer porque vem chuva aí”. E a mesinha sem uso mas cheia de significado e amor foi parar no quarto preparado para receber a filha da mulher de vestido florido, uma filha que estava longe fazia muito tempo e que agora vinha ficar com ela. O quarto foi montado inteirinho com vendas e compras online. A grande televisão da sala havia virado cama. Jogos de cozinha sem uso haviam virado roupa de cama. E aquele móvel que representava o amor de uma mãe por sua filha, continuaria a representar a mesma coisa, só que agora em uma nova casa.

Foi a segunda entrega. A cadeira quase foi parar na rua, porque trazia algumas marcas de unhas de gato e já não funcionava mais a elevação do assento. Mas agora está no escritório doméstico do rapaz recém-chegado de São Paulo, recomeçando. O único que preocupo-se se era fácil encontrar local para estacionar. “Trabalhei anos com TI”, disse ele. Promessas de ajuda para divulgar o currículo, que chegou nesta semana na caixa de entrada e já voou para alguns contatos. Uma cadeira, muitos sonhos, um escritório onde até o computador ainda estava sendo montado, com peças “baratas” adquiridas de tantos cantos da cidade.

Foi a terceira entrega. “É mesmo este valor?”, ele não parecia acreditar. Um encontro banhado a chuva entre o shopping e o terminal de ônibus. E a alegria foi tão grande em poder dar ao filho algo que ele muito queria que mal deu tempo de chegar em meu destino e já recebi uma mensagem, onde dizia que o produto estava perfeito e que o filho havia amado. “Eu nem sei como agradecer”. Como se precisasse… ele já havia pago o preço pedido, ainda que o valor fosse muito, muito maior, pelo menos para ele. Valeu a pena o banho de chuva fria.

Foi a quarta entrega. E a surpresa de ver caber num Voyage uma cama solteiro inteirinha, com cama auxiliar e dois nichos. “É pro meu filho”, compartilhou ele. Este já era especialista em fazer bons negócios e compartilhou que até carro já havia negociado na internet.

Foi a quinta entrega. Negociação rápida. Entrega mais ainda. O rapaz abraçou o quadro tão rapidamente que parecia ter medo que mudássemos de ideia. Era visível que estava maravilhado. E eu também fiquei. Não sabia que me desfazer do quadro de 5 mil peças, aquele de quebra-cabeças, dos 4 mapas, aquele que me enchia de boas lembranças e que representava tanto pra mim, poderia me fazer tão feliz.

Foi a sexta entrega. Após várias negociações que deram trabalho e até um “bolo” que empatou várias vendas, apareceu a pessoa certa. Daquelas negociações em que se baixa bastante o preço, mas se descobre que só fez aumentar seu valor. Pais que fazem sacrifícios com amor pelos filhos. Os ressignificados da própria palavra sacrifício. Esta entrega rendeu uma boa conversa, quase difícil de ser encerrada.

Foi a sétima entrega. Tão tímida e discreta como seu comprador. A venda do monitor que quase virou doação talvez tivesse passado desapercebida, não fosse um torpedo de agradecimento, nem mesmo saberia que ela também havia feito alguém feliz.

Foi a oitava entrega. Aquela que era nossa menina dos olhos. A venda considerada a mais importante. Em valor e preço. E ela conseguiu. Coroou todas as demais. Superando as que vieram antes e depois dela. E esta também deu trabalho. Negocia daqui, negocia dali, promessas não cumpridas, abordagens de profissionais de usados e de alguns tantos outros com propostas inimagináveis. Mas tudo isso perdeu a importância depois daquele brilho nos olhos da jovem e daquele sorriso nos lábios do jovem que vê que encontrou o que a sua jovem queria. E veio até com direito à emoção extra, causada pela pressa em carregar os móveis no carro emprestado da empresa, que era aberto, há tempo de escapar da forte chuva que já despontava. A alegria do jovem casal foi tão grande e transbordante que carregou de imagens e palavras felizes muito mais que o meu whatsapp, encheu meu coração com a certeza de que nada do que vendemos foi barato.

No mesmo dia das últimas entregas, orçamento com pintor, vidraceiro, tudo para deixar impecável o imóvel que nos abrigou por quase 1 ano. E o que começou como um recurso para arrecadar o montante para as obras sem gerar custos ao orçamento, transformou-se numa agradável experiência de amor.  E como amor não se economiza, os futuros moradores, e o próprio imóvel, receberão o melhor de nós. Entregaremos o nosso melhor. Porque uma negociação pode ser amorosa quando não trata apenas de preço, mas sobretudo de valor.

Sou a Cris, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização e recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras e amante de uma boa conversa e de um bom livro. Acredito que todos podem escrever.

Agradeço o seu compartilhamento e comentário!