Daqui a 2 semanas Maria faria 54 anos. Exatamente 20 dias antes do meu aniversário. Ela trazia tanta vida marcada na pele que eu imaginava que tivesse ao menos 60 anos. Se dissesse que tinha 70 eu possivelmente acreditaria. Pintava os cabelos. Um tom de castanho. E os fios estavam tão ressecados que pareciam poder quebrar com apenas uma escovada. Apesar dos sulcos no rosto, tinha um corpo magro e forte. Não aparentava problemas de saúde. Mas algumas doenças e dores não são fáceis de perceber ou são exatamente visíveis.

Ainda estava me acostumando aos personagens da nova vizinhança quando a vi pela primeira vez. Me chamou a atenção o seu passo vigoroso. Ela puxava um carrinho de recicláveis. A maior parte era papelão, mas também pude ver algumas embalagens plásticas. O carrinho já estava bem cheio pelo horário. Era por volta das 10 horas da manhã. Ela devia ter tido uma manhã muito boa, ter saído de casa muito cedo ou ainda trazer alguma carga do dia anterior, pensei comigo. Nesta primeira vez ela não me viu, ou pelo menos não notou que eu a havia visto.

Depois deste dia nos reencontramos muitas outras vezes. Trocávamos apenas breves cumprimentos, apesar de nossos olhares e sorrisos se tornarem cada vez mais próximos. Eu queria saber mais sobre ela, mas estava sempre em caminho. Ou indo, ou vindo. E também parecia me faltar alguma desculpa para a conversa. Éramos duas autênticas desconhecidas conhecidas. Até o dia do panetone. Na igreja que frequento está se transformando numa tradição entregar panetones no culto da véspera de Natal. O convite é para que cada família o entregue como presente para alguém com quem não se tem muito contato ou que exista alguma diferença a ser superada. Maria foi a única pessoa em que pensei. Ela me veio rapidamente à mente. Meus filhos e esposo pensaram em outras pessoas, mas me cederam esta oportunidade.

Não sei se por motivo das férias, eu não via mais a Maria. Passaram-se dias. Para mim pareceram semanas. Até que chegou o dia 3 de Janeiro. A primeira terça-feira do ano. A vi quando voltava pra casa. Estava de carro com a minha filha caçula. Maria estava a poucas quadras da minha casa. Até pensei em parar o carro, mas o panetone não estava ali comigo. Ele estava ao lado da minha cama. Separado para ela. Por isso me apressei em chegar em casa, pegar o panetone e sair em sua procura para entregá-lo. Não precisei andar muito. Logo na primeira quadra, ela virava a esquina. Usava o mesmo boné vermelho de sempre e trazia os mesmos olhos alegres no rosto envelhecido e quando meu viu indo em sua direção parou para me esperar. Fiquei tão feliz em vê-la que nem me preocupei em explicar ou pedir permissão para proximidades, simplesmente a abracei. E no fim do nosso abraço tivemos nossa primeira e única conversa. Contei a ela a história do panetone e nós rimos de tudo aquilo. Foi um breve e profundo encontro. Voltei pra casa sorrindo. Com o coração muito agradecido.

Os dias se passaram e eu não mais a via. Por isso nesta semana resolvi ir até a escola em que ela pegava recicláveis todos os dias, uma pré-escola perto de casa, e recebi a notícia de que Maria havia partido desta vida. Para minha surpresa eles sabiam menos do que eu sobre ela e haviam sido informados por uma família de carrinheiros que agora coleta os recicláveis da escola.

Adeus, Maria! Foi ótimo o breve momento que tivemos. Espero que tenha gostado do panetone. Porque para mim ele teve um gosto muito especial.

Sou a Cris, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização e recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras e amante de uma boa conversa e de um bom livro.

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