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Quando eu o vi se esfregando daquele modo no chão… eu sabia que ele estava feliz. E se antes eu já estava feliz, fiquei muito mais.

Eu cresci sem animais de estimação. Na verdade, eu cresci com muito medo da maioria dos animais. Deve ter sido trauma de infância. Desde que fui perseguida por uma galinha que não levou numa boa eu querer me aproximar de seus pintinhos. Eu devia ter uns 6 anos. Até hoje morro de medo de bicos, mas acho lindo ouvir os pássaros e vê-los voar. E ainda enquanto criança, mesmo que me desse calafrios aquele olhar de lado dos pombos que pousavam na minha janela, eu sempre dava um jeito de espiar e catalogar os visitantes do peitoril. Eu conhecia cada tom das penas. Cada largura de pescoço. Numa admiração contraditória.

Por conta do meu modo de ser, sempre ouvi que me daria super bem com um cachorro. Que um canino bem serelepe daria muito certo comigo. Hoje sei que acreditei numa mentira. Porque minha única tentativa de ter cachorros foi uma experiência desastrosa. Mas este texto não é sobre o fiel amigo do homem. É sobre gatos. Estes felinos de pequeno porte super carinhosos, sonolentos e silenciosos. Talvez por isso goste tanto destes animais. Eles transmitem calmaria, serenidade, profundidade. E independência. Aprendi a amar gatos com a Puffa, minha primeira gatinha. Ela cabia na palma da minha mão quando a compramos de umas crianças que moravam no mesmo prédio que nós. Fui eu quem quis ficar com ela, cheguei a insistir, mas passei quase uma semana dando pulinhos cada vez que cruzava com aquela pequena criatura dentro de casa. Até das mordidinhas e minúsculas unhas eu sentia certo temor. Foi o início de uma relação de muita proximidade e cuidado. Para ela, somente o melhor. Sempre o melhor. Até hoje sinto saudades de trabalhar com ela deitada sobre a CPU e de acordar com ela aconchegada sobre o meu pescoço. Ela gostava de fazer isso. E eu também. Pobre gatinha. Criada como um bichinho de pelúcia, super protegida naquele apartamento e acostumada a passear de carro, não sobreviveu a liberdade de ter acesso à rua. Com ela aprendi que quem protege demais desprotege.

Depois dela vieram alguns outros gatinhos, todos livres e bem diferentes daquela Persa gorda e peluda. Vieram gatos doados. Alguns largados em nosso quintal. Ficaram dois. O Onça e o Botas. Dois gatinhos irmãos. Lindos. Laranjas. Eu quase diria dourados. Apenas um ainda vive conosco: o Onça. Ele era sempre o mais distante, o mais ressabiado, mas depois da triste morte do irmão, eu e ele viramos unha e carne. Um consolando o outro. Unidos na dor de tê-lo visto morrer. E não bastasse as muitas perdas, ele ainda experimentou o que era sair da liberdade para a vida em cativeiro. Pelo menos foi assim que eu e meu marido encontramos o melhor modo de definir como seria para o Onça a sensação de mudar para um apartamento de não muitos metros quadrados, no sétimo andar e com redes de proteção nas janelas. O bichano já estava claramente deprimido quando nos ofereceram um gatinho que parecia ser seu irmão de tão parecido. Outro gato laranja. Yoda, ou Yodi como as crianças costumam chamar, havia chegado para alegrar toda a família. Suspeito que naquele momento não existia gato mais amado em todo o mundo. Tornou-se o bebê das crianças e, aos poucos, também do Onça. Hoje, seu maior companheiro.

A vinda dos nossos dois gatos para o novo apartamento prometia não ser muito diferente da primeira mudança, não fosse o fato de terem mais espaço e alguma chance de maior liberdade. Até mesmo as perguntas dos vizinhos e conhecidos pelas telas nas janelas se repetiram. Mas desta vez não haveriam telas. O apartamento era no primeiro andar. E apenas por opção própria, os gatos não iriam para a rua. O que fato tem ocorrido. Até o momento eles só saíram para a área externa do próprio apartamento – talvez este primeiro andar ainda seja um pouco alto e sem apoios para garantir um retorno seguro. Talvez só estejam fora de forma. A verdae é que sempre aprendo muito observando estes bichanos.

Viemos poucos dias antes deles. Os trouxemos somente depois que já tínhamos guardado algumas coisas e pendurado ou protegido objetos que pudessem servir para eles afiarem as unhas. Logo que chegaram permitimos que ficassem apenas dentro de casa, para que se habituassem ao novo local, ou melhor, para que entendessem que aquela seria nossa nova casa. Sim. Até aí a experiência não havia sido mesmo tão diferente da vivida na mudança anterior. Até que abri a porta que levava para a área externa do apartamento. Os gatos se aproximaram lentamente, cuidadosos, encorajados pelo fato de estarmos ali fora também. O Onça ia na frente, como quem ensinava o caminho ao amigo, que para além daquele antigo apartamento só conhecia o veterinário no qual havia sido castrado. Bem possível que não guardasse boas recordações daquele passeio. Mas o receio não durou muito tempo. Logo o Onça se sentiu à vontade para explorar o novo pequeno território. Não era a rua. Não era um grande quintal. Mas ali ele podia sentir o Sol bater direto em seu corpo no modelo céu aberto. E havia até espaço para pequenas corridas. Quando eu o vi se esfregando daquele modo no chão… eu sabia que ele estava feliz. E se antes eu já estava feliz, fiquei muito mais. Me parece ser indescritível em palavras a sensação de liberdade que pude ver no gato naquele momento. Ele se esfregava na vida.

Até aquele momento não havia dado muita importância para o porquê dos gatos gostarem de se esfregar. Me contentava pensar que seria o instinto de marcar território e objetos. Ou um modo de pedir atenção, carinho, ou dar carinho. Mas ali, vendo meu gato extasiado em se esfregar no chão, e não por motivos de euforia de acasalamento, percebi claramente que aquela era uma expressão de alegria. E ele não se esfregava apenas nas paredes… ele se esfregava e rolava por todo o chão. Não era apenas um modo de deixar sua marca olfativa, era mais, era muito mais, era um transbordar, era um celebrar. E foi uma lindeza de se ver. Uma cena que me serviu de convite para também querer me esfregar na vida. Sentir os seus cheiros. Deixar o meu cheiro. Transbordar.

Porque quando eu o vi se esfregando daquele modo no chão… eu sabia que ele estava feliz. E se antes eu já estava feliz, fiquei muito mais.

Sou a Cris, Cristiane Souza, jornalista. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu ideal é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização. Sou também revisora e editora e idealizadora do portal entreciclos e facilitadora em treinamentos e palestras.

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