De joelheiras, cotoveleiras e capacete, pedalava a menina. Dava suas pedaladas, mas não seguia sozinha. O pai não a deixava seguir. Bem possível que não fosse intencional. Muito pelo contrário, ele claramente estava ali para ensiná-la ou motivá-la a andar de bicicleta sem as rodinhas. Pelo menos em intenção.

A menina ou era grande para a idade, ou realmente tinha por volta dos 10 anos. Menina magra, de pernas longas, pele branca e cabelos escuros de um castanho quase preto. Levemente ondulados e aparentemente finos. Uma menina que demonstrando paciência, quietude ou obediência, em momento algum ousou desafiar o pai. Não ergueu a voz. Não emburrou. Não chorou. Ela pedalou, freou, subiu e desceu da bicicleta sempre que foi solicitado. Seguiu todos os combinados. E não deixou de sorrir.

Enquanto a menina treinava, o pai, curvado, seguia correndo, agarrado ao assento da bicicleta. De longe se via a menina manter-se em bom equilíbrio. O guidão ainda fazia um zigue-zague bastante recorrente entre os ciclistas iniciantes, mas era praticamente certo que assim que o pai soltasse o selim a menina seguiria sozinha, ao menos por alguns metros. Seguiria ziguezagueando, mas se equilibrando e pedalando sozinha. Acontece que o tempo passou e o pai cansou de correr, já devia estar com dor nas costas, e do selim ele não largou.

Em seguida, numa estratégia diferente, o pai subiu na bicicleta da menina e desceu um pequeno morro de grama com as pernas levantadas do chão, apenas se equilibrando, sem pedalar. Fez isso umas duas ou três vezes, enquanto a filha observou. Pai e menina sorriram numa cena perfeita de comercial de planos de saúde. Então, chegou a hora de ele passar a bicicleta para a menina, que infelizmente não pôde descer se equilibrando sozinha. O pai segurou num dos lados do guidão e tentou correr ao lado da bicicleta. Este segurar fazia força contrária à descida, travando o movimento, e também puxava a bicicleta para o lado em que o pai estava, quase tombando-a, e fazendo com que a menina jogasse o corpo para o lado oposto, a fim de compensar.

Durante o tempo em que pai e filha treinaram, ou brincaram, juntos, não se viu tombo algum. Nem comemoração. Mas se viu uma menina pedalando, pronta para bicicletar. Sorridente, tranquila, sem sofrer com sustos ou machucados, não porque estava trajada de equipamento completo de proteção… e que confiava no pai. Assim que ele estiver pronto, ela poderá seguir.

Sou a Cris, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização e recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras e amante de uma boa conversa e de um bom livro.

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