Acredito que eram dois quilos em cada perna. O caminho? Um tanto estreito, mas cercado de imensidão. Uma caminhada sinuosa. Com subidas e descidas. As elevações não eram muitas, e nem muito íngremes. Mas aquelas pernas com certeza podiam sentir o peso das mudanças, ainda que leves e poucas parecessem. Segurando nas mãos do ajudante, seguido pela cadeira de rodas empurrada por outro, um senhor caminhava. E apesar do peso nas pernas, era grande o sorriso que trazia no rosto. Um sorriso de feição inteira, ainda que não mostrasse os dentes. Sorriso daqueles de olhos, de testa, de bochechas.

O homem que conduzia o senhor pelas mãos talvez fosse um enfermeiro, talvez fosse um fisioterapeuta, talvez fosse um filho. Independente da resposta, aquela troca de olhares deixava claro que ali havia presença, havia a cumplicidade de quem caminha junto. E o sorriso de quem compartilha cada avanço. O homem que seguia à frente caminhava de costas. Ainda assim, havia tanta firmeza em seu caminhar que parecia falar: “pode confiar em mim”.

O rapaz que vinha logo atrás, bem possível que fosse um neto, empurrava a cadeira numa posição de transmitir segurança. Ou seja, caso o senhor se desequilibrasse ou precisasse de um descanso, bastaria um ou dois passos para trás, ou aguardar dois segundos, para ter aonde sentar. Talvez por não ter os olhos do senhor à sua frente, talvez por estar seguro de que não haveria alguma surpresa negativa, o jovem rapaz levava a cadeira totalmente despreocupado. Olhava ao longe. Sua presença não estava na estreita trilha de caminhada, estava na amplitude da praça, talvez até para além da praça. O jovem, de cabelos loiros, ondulados, compridos, caídos sobre os ombros, parecia não se importar com o despentear do vento. Ao contrário, em seu corpo magro e alto, parecia aproveitar daquela tarefa como de um momento de descanso, caminhado em passos curtos apesar das longas pernas.

Apenas parte da pista de caminhada da praça havia sido explorada pelo trio de caminhantes. A que ficava mais ao fundo. Talvez porque estivesse distante da rua de maior movimento. E nesta pista, deram não mais do que duas ou três voltas, o que já era uma boa caminhada para alguém que trazia tanto peso nas pernas. Até que o vento começou a dar sinais de chuva e o céu todo correspondeu. Era hora de voltarem para o carro, e o senhor para a sua cadeira. Mas, sem apressar o passo, ainda com o peso nas pernas, envolto pelo vento frio e recebendo na pele o toque de algumas poucas e esparsas gotas de chuva, o senhor caminhou sozinho, sem qualquer auxílio, não até a cadeira, mas até o carro. É bem possível que estivesse se sentindo muito leve.

Sou a Cris, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização e recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras e amante de uma boa conversa e de um bom livro.

Agradeço o seu compartilhamento e comentário!