– Só mais uma!

– Acho que essa aqui é das que você está montando.

– Só vou terminar este grupinho aqui.

– Separa as desta cor pra mim, por favor.

– Achei mais uma!

– Os cantos primeiro.

E quando víamos já passava das 3 horas da manhã. Nosso primeiro quadro de quebra-cabeças foi montado quando ainda éramos só nos dois. Eu e meu esposo, brincando de casinha. A imagem era uma ilustração com 4 mapas antigos, formada por 5 mil peças. Moldura escolhida a dedo. Vidro antirreflexo. Havia ficado lindo e enchia a parede. Depois dele vieram outros. A maior parte com um número pouco menor de peças. Mas alguns eram igualmente grandes, só que montados para outras pessoas. Faltavam paredes para nossa fome de quebra-cabeças e nos contentávamos em sermos montadores de aluguel. Mesmo após muitas montagens, aquele primeiro quadro sempre me pareceu especial. Embora a grande verdade é que nada tivesse porque ser mais especial além de ter sido o primeiro. Não era o quadro, exatamente, especial. Era eu quem o considerava assim.

Sabe aqueles objetos especiais? São mais comuns do que imaginamos. O que não precisa ter relação com o valor financeiro. Esse toque de especialidade é o que norteia as coleções, por exemplo. Aquilo que tem valor e faz algum sentido, não raras vezes, apenas para quem os coleciona. Eu já tive muitas coleções e nutro relativo apreço pelo hábito de colecionar. Como porta-retratos, quadros de quebra-cabeça, ímãs de viagens, ou mosaicos com as fotos dos meus filhos. E nem precisarei me esforçar muito para lembrar de outros tantos artigos colecionáveis. Talvez você também os tenha. Coleções de imagens. Coleções de memórias.

Acontece que os antigos quadros pendurados na parede deixaram de fazer sentido. Nesta semana me peguei questionando o porquê de tanto destaque para as imagens das crianças bebês quando há tanto para registrar dos momentos presentes… e resolvi trocar tudo! Os mosaicos de fotos e molduras são os mesmos, mas as fotos foram “atualizadas”.

Afinal, quais os reais motivos para se estampar na parede e dar destaque somente ao que um dia eu vivi, se é possível estampar motivos que demonstrem a alegria do momento presente ou os gostos decorativos do momento. Por isso escolhi celebrar o que tenho vivido hoje e dar visibilidade não apenas ao que foi, mas ao que é. E fiz um combinado que daqui em diante será sempre assim. E isso me pareceu bom. Um modo de driblar minha mania de viver com o pé sempre um tiquinho no ontem. Em vez de colocar novos quadros e porta-retratos, agora iria apenas mudar as fotos, sempre que necessário. E isso não valeria apenas para os retratos. Valeria para outros objetos também.

Porque mesmo que lembranças ou memórias sejam bem diferentes de objetos, a linha é bastante tênue e as coisas conseguem exercer um poder bem maior sobre nós do que elas realmente possuem. É quando as memórias se fundem às coisas. E, de repente, junto com a memória, ficamos presos aos objetos. Talvez presos às lembranças que eles podem trazer.

Enfim, mudei as fotos, fiz algumas permutas de materiais diversos, coloquei o quadro dos 4 mapas à venda. Agora ficam deles apenas o que sempre em verdade foram: uma desculpa para resgatar minhas memórias.

Sou a Cris, jornalista, revisora. Escritora desde sempre e poetisa por necessidade. Tenho livros infantis publicados desde 2014. Meu propósito é produzir literatura que auxilie e encante crianças em processo de alfabetização e recém-alfabetizadas. Atuo também como facilitadora em treinamentos e palestras. Sou apaixonada por palavras e amante de uma boa conversa e de um bom livro.

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